quarta-feira, 3 de agosto de 2011

À Nicole

Se for para deixar-te
Deixo-te a insensatez
o sem juízo,
a falta de siso
e o riso

Se for para deixar-te
Deixo-te o tédio
o rio, o mar,
o saber-amar

Se for para deixar-te
Deixo-te o lero-lero
o bem-me quero
o parque no dia de sol
o peixe brilhante no anzol

Se for para deixar-te
Deixo-te os livros todos
e seus mundos todos
O sem-cerimônia
do eterno espiar

De for para deixar-te
Deixo-te casa, carro, tesouro
moedas, panelas e ouros.
Deixo também o aviso:
livre-se desses besouros

[que te dão asas mas não te fazem voar]

Se for para deixar-te
Deixo-te meu corpo
como saco de pancadas
e vudu de alfinetadas

Se for para deixar-te
Deixo-te o olho ingênuo
a mão aberta
os lábios puros
a alma nua

Se for para deixar-te
Deixo-te a neve que aquece a lembrança
o sol que varre a lambança
o vento e seu ciciar
o bento do pestanejar

Se for para deixar-te
Deixo-te nada
para que possas ser tudo
no remoto do tempo
no eterno do espaço