terça-feira, 24 de novembro de 2009

Lebenswelt

Meus olhos
Não os vejo
Presenças ausentes
No lume fantasma
Do espelho avante

Meus olhos
Não os vejo
Construo sentidos
Por meio dos meios
No fundo distante

Meus olhos
Não os vejo
Farejo as cores
Perdidas no branco
Dos raios passantes

Meus olhos
Não os vejo

Corpo

Meu cárcere
Meu cálice

Covil de paixões desenfreadas
Tecido de sensações alucinadas
Povoado de cobiças
E desejos insanos

De ti verte o prazer
O enredar-se na trama do real
Tocar superfícies geladas
Que ardem na pele queimada

Massa disforme de ordem pretensa
Cativo entrópico de nascimento
Morre um pouco a cada instante
Seus nacos desintegram-se lentos

Em ti realizo o sonho
Desço à terra o impossível
Navego caminhos errantes
Mudo em sinas vaticínios

Em febris estados me lança
Importuna-me com seus reclames
Passeios de êxtase anseia
Dos toques das moças faz enxames

Por ti enxergo as cores
Me lanço para fora do espelho
Caminho altissonante
Eterno devaneio

Meu cálice
Meu cárcere

Autógrafo

Autógrafo
Auto grafo
No nome o eu
Sou pelo nome

Nomeio
No meio
Da vida o nascer
Vem pelo nome

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Abismo do Ser

Eu sou eu
e só eu
Aético
Antiético
Antitético

Cêntrico
Egocêntrico
Corpocêntrico
Antropocêntrico

Nós
Eles
Vós
Aqueles
São fora
São nada
Estão fora
Estão nada

Umbigo

Marca do eu
Do meu
Do centro
Antropocentro


Marca do seu
Do ela
Da vida
Vidanascida

Placelor

Dragão bicéfalo
Que vãs consciências arrebata
Ao topo do mundo

Dor que me apraz
Prazer que me traz dores
Gêmeos mortais

Na busca de um
O outro encontrar
Na face do outro
Aquele enxergar

Prazer que arrebata
Dor que maltrata
A mesma maldita
De todos bendita

Sublime gozar
Suplício sofrer
Dor que arrebata
Prazer que maltrata

Humano destino
Perdido vagar
Em mar de sereias
Seu canto escutar

Prazeres promessas
Dores concretas
Na festa do mundo
O limpo e o imundo

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Minha Pena

A mão que guia
É a mão que forma
Pegadas em nanquim gravadas

A mão que guia
É a mão que deforma
Arcos tesos de idéias

A mão que guia
É a mão que transforma
Infunde cristais em sentidos vazios

Rompe os alvos silêncios
Sons faz etéreos
Sonhos faz eternos

Padre Nosso

Por seu Nome
Chama à vida
O corpo silente

Por seu Reino
Transforma a água
No fogo da mente

Por sua Vontade
Sustenta o braseiro
Do ser vivente

Por seu Perdão
Recebe o fraco
Em alma dormente

Por seu Poder
Liberta o cativo
Do riso demente

Por seu Amor
Carrega as dores
Da alma temente

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sintagmas

Letras vadias
Enredam-se, endoidam-se,
Misturam-se

Em tragédias e comédias
As mesmas letras
Pedaços de alma rasgada
Rasgos de alma penada

Vadias - passeiam,
Misturam-se, enredam-se,
Endoidam-se

De espartanas realidades construtoras
Sentir não podem, quiçá viver
Mas o mundo a si reduzem
Aprisionando sentidos

Vadias – combinam-se,
Transformam-se, endoidam-se,
Enredam-se

Em sílabas, frases, suspiros.
Poemas, brinquedos, folguedos
Pedaços de alma rasgada
Rasgos de alma penada

terça-feira, 17 de novembro de 2009

A vida é uma vela

Ora desfaz lenta -
Desequilíbrio estável da cera.
Queimando longos pavios,
Exalando morosa seus pingos lodosos.


Ora despedaça com força -
Desequilíbrio estável da cera.
Consumindo seu próprio corpo,
Pingando vapores de instantâneo fátuo.


Ora liquefaz de uma vez -
Desequilíbrio estável da cera.
Incinerando lembranças,
Derretendo imagens em densa fumaça.


Sumir lenta,
Traz o prazer dos dias,
E o enfado dos dias.
Marasmo de um tempo que só se repete.


Partir lépida,
Traz a emoção da aventura,
E o vazio da desventura.
Prazeres fugazes que não se repetem.

Desaparecer,
Traz a marca do herói,
E o ridículo do herói.
- Símbolo é sempre para os outros.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ars Nova

Na excelência idênticos
Todos artistas são
Prendendo o belo
Com a arte das mãos

Com fogo marcar
Paisagens de vento
De água regar
Sementes do tempo

Entender o sentido
De mundos perdidos
Fazer sustenidos
Em sóis derretidos

Ver o que não se viu
Na foto do lance
Momentos distantes
Ideal alcance

Saber registrar
O tempo passar
Poder escolher
O sabor do viver

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Diálogo entre o Sol e a Terra

- Por que te invejaria eu, ébrio,
Se de tuas tórridas superfícies
Sustento vida nenhuma logra obter?

- Sei que me invejas...
Meus hélios raios
Brilhantes e puros.
Não são deles, afinal,
Que as vidas logram se suster?

- Por que te invejaria eu, ébrio,
Se desses hélios raios,
Quando seu auge atingem,
Todos se põem a esconder?

- Sei que me invejas...
Minha luz fulgurante
Resplandece e faz dia.
Não é ela, afinal,
Que sinônimo do bem se fez?

- Por que te invejaria eu, ébrio,
Se nas minhas tenras entranhas
Prenhe estou de vidas,
Enquanto que das tuas inóspitas clareiras,
Sequer almas se aproximam?

- Sei que me invejas...
Pois se vidas as têm
Em seu ventre de rocha inerte,
Sou eu quem as nutre
De calor e energia.

- Por que te invejaria eu, ébrio,
Se de ti as vidas conhecem apenas
Uma face hostil, em fogo coberta,
Quando de mim saem e a mim tornam
Esses meus pequeninos?

- Sei que me invejas...
Pois se em ti crescem e perecem,
Comigo é que eles sonham
E de mim fizeram deus.

- Por que te invejaria eu, ébrio,
Se em suas próprias chamas morrerás,
Em explosão sem par!
Fria e vazia afinal.

- Sei que me invejas...
Pois espetáculo serei ao morrer,
E permanecerei longo após.
Quanto a ti, comigo morrerás,
Em meu esplendor te consumirei
E sequer lembrada serás.

Sobre cachorros e lobos

Caiu de lado
Do lado oposto
A bola murcha
Do dia a dia
Qual!

Caiu de lado
Do lado oposto
A bola cheia
Do sumo brilhante
Qual!

O muro no mesmo
É o mesmo do muro

O muro é o mesmo
Mas nós não o somos
À cheia nós vamos
A murcha deixamos
Qual!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Fuá

Âncoras vazias
em potes de cera
Trafegam solenes
Nos vasos da lua

Pêndulos sombrios
em caixas serenas
Movem tristonhos
As ruas do tempo

Chaves desertas
e morros distantes
Partem silentes
Nas trilhas da alma

Pilhas marinhas
em dunas de seda
Acendem no espanto
Os caminhos do vento

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Esquinas

Na vida são muitas
Esquinas vertidas
Andares sem volta
Nas voltas da vida

Primeiras esquinas
Olhares do novo
Nem sempre o bom
Às vezes renovo

Esquinas erradas
Em ruas vazias
Bueiros abertos
A tristes sangrias

Luminares esquinas
Ao céu caminhantes
Nas trilhas da luz
Limiares errantes

Esquinas sombrias
Têm cheiro de morte
Sorvendo marotas
O fausto da sorte