terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Esquinas

Na vida são muitas
Esquinas vertidas
Andares sem volta
Nas voltas da vida

Primeiras esquinas
Olhares do novo
Nem sempre o bom
Às vezes renovo

Esquinas erradas
Em ruas vazias
Bueiros abertos
A tristes sangrias

Luminares esquinas
Ao céu caminhantes
Nas trilhas da luz
Limiares errantes

Esquinas sombrias
Têm cheiro de morte
Sorvendo marotas
O fausto da sorte

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Uma oitava mais cedo

Altivo se lança ao luar
Cativo somente do ser
Viver ao mais e depois
Fazer da vida o melhor

De mim, triste figura
Cadente ao léu padecer
Sorrir jamais no pensar
Viver da vida o pior

Fidalgo rampante ao caminho
Matreiro embriaga os momentos
Sorver o doce sereno
Fazer da vida o melhor

No copo, enxergo o vazio
Deserto em teias rasteiras
Sombrio azeda o tempo
Viver da vida o pior

Charmoso alteia os olhos
Saltando profundos abismos
Sereno avança tranqüilo
Fazendo da vida o melhor

No topo, mergulho ao fundo
No céu desespero absurdo
Sozinho afundo comigo
Vivendo da vida o pior

Por isso saio ligeiro
E deixo o galante faceiro
Pois de nós o acorde ligeiro
Saiu uma oitava mais cedo

Passageiros

Construção múltipla de sentidos
Um ser de passagem
Em mundos sem norte

Pegadas no futuro
Um jogo de dados
Ou um dado no jogo

Progresso que no caos nasce
E na ordem cresce
Mudança constante
Em eternas travessias

Limites

Do fim só sabe
Quem o atravessou

O caminho conhece
O retornante
A cabeceira da ponte
O caminhante

Fronteiras se voltam para dentro
Barreiras te prendem no ventre
Do fim só sabe
Quem já o passou

Leite e Sangue

Espantalhos de vida
Cadinhos velados
Solitárias alegrias
Suplícios da esperança
Celebrações de traidores
Chacais
Pétalas nodosas
Calor de torturas
Despertar de trevas
Sangue

Sabores de morte
Angústias pacíficas
Dores conjuntas
Confiar em vazios
Covis de amigos
Borboletas
Pestilências diáfanas
Frios carinhos
Aurora do belo
Leite

Razão

Praia deserta
De certezas vazia
Estéril filão

Torpeza de sentidos
Enxugando em áspide
Fogo e paixão

Pura razão
Nula visão
Amarga agonia

Interlúdio

As sombras antigas
Projetam-se sólidas
Da criança os pés cravejados
Apegos insólitos e arrimos solícitos
Amigos do medo do desconhecido.

As luzes faceiras
Incendeiam clareiras
Do ancião os ares prolongados
Afetos tardios e abraços bravios
Afagos ao ópio do que já passou.

Revolução

Às armas!
Derrubem muralhas, rompam bastilhas,
Lancem por terra os medievais!
Aos profetas, novas profecias,
Silêncio aos que não ouvirem,
Morte às vozes dos tradicionais!

Às armas!
Pintem de negro os bustos burgueses,
Uivem em fúria os filhos do vento!
Ao povo ensinem o pensar,
Aos doutores, a cartilha dos sãos,
Ai dos que se ouvir lamento!

Às armas!
Aos dominados, os hábitos pobres,
Ergam-se novos os filisteus!
Dos ricos, os hábitos seus,
Novo hino, nova bandeira,
Dêem ao povo os símbolos seus!

Às armas!
Queimem os livros e escrevam inauditos,
O novo saber de quem têm o poder!
Ao outro o meu,
Mulheres roubadas, sementes plantadas,
Os genes dos filhos que vão nascer!

Às armas!
Cortem os ossos e façam exemplos,
Ditem as regras do que é o ser!
Ensinem aos ingratos o seu coração,
É sua a história, de muito contá-la,
Derrubem os templos do seu velho ser!

Às armas!

Brincadeira de Criança

Bizarro arremedo
De um triste folguedo.
O vento em chamas
Corta as carnes do corpo azedo –
Um tiro ressoa ao luar.

Funesto brinquedo
Das mãos inocentes.
A brasa em bala
Rompe as entranhas do corpo azedo –
Um tiro ressoa ao luar.

Malquisto segredo
Desperta o demônio.
Das chamas no vento
Vara os poros do corpo azedo –
Um tiro ressoa ao luar.

Despertar

No sonho as marcas sangrentas do despertar
Opaco viço
Do real os doloridos tentáculos
Lacrimejantes avançam em nódoas porosas

Estipêndios arrancados de nobres vilanias
Mormaço pico
Dos raios que brilham
Ardentes incêndios alastram

Na alva torpores do mundo
Confuso mito
Do viver a constante incerteza
Rasga no fundo suave beleza

Palavras

Tênues eufêmicas
Expressões do pensar
Pobres imagens
Do ente profundo
Pedras à mente
Do nórdico ser

Garranchos em fiapos de seda
Pálidos reflexos no tecido espelhado
Dos ricos pensamentos
Vagas lembranças de
Verdades intensas

Partes constantes
De coisas-em-si
Que em si nada são
Pois quimeras
Palavras

Louco

Pare!
Ande! Mexa-se!
Os bichos das sombras se escondem
Na sombra dos bichos.

Veja!
Tome! Mude!
Se falo o que penso é por
Pensar o que falo.

Cante!
Ria! Melodia!
Na rua dos contos
Encontro uma rosa
Que brilha no escuro
E dorme na guia.

Corra!
Fuja! Pinte!
Sou perigoso pois
Sei do gostoso.
Se bebo em prazer
Não fujo ao viver.

Mate!
Morra! Finja!
Não temo o morrer
Pois vivo o sofrer.
As chuvas que caem
Já não me atraem.

Fênix

Ao céu a condeno!
Espreitar as nuvens
Cavalgando o vazio
Navegando sem rumo
De caça em caça

Eterno tormento!
As almas enxergar
Daqueles de quem se alimentar.
Nas penas cravadas as vidas perdidas
De garra em garra

O fogo buscará!
Atormentada em dores
Por uma vã liberdade.
Já no seguinte instante
Consciente será de suas cinzas
Que em dores se refarão!

Novo nascer
Voltar a morrer

Viagem em Névoas

Andarilho em trajes sombrios,
De ventanias presságio
Rasga caminhos na nuvem de seda.

Na tela pegadas de vento,
Poeira de velhas miragens
Traçam visões na tênue fumaça.

Da imagem os indícios
Projeções em neblina
Dissolvem no ar fantasias de teia.

Vestígios de devaneios
Pedaços de velhos sonhos
Iludem as almas na espessa cortina.

Cérebro

Rajadas cruzam meus nobres neurônios
Quantidades perdidas rasgando a rede
Rompendo sentidos do vão fragmento
Despertando em dores a sã consciência

Psico-bio-químico
Eletro-encéfalo-grama
Dor-vontade-desejo

Lampejos circulam nos finos dendritos
Dos axônios vertida a sede
Cortando caminhos no meio do vento
Lançando em cores a vil aparência

Psico-bio-químico
Eletro-encéfalo-grama
Dor-vontade-desejo

Ar aos pulmões bombear
Alimento no ventre acolher
No sono repouso alcançar
No lixo despojos verter

Bio-psico-químico
E sempre e novamente
Humanos profundamente

Febre

Intensa
Me chega você
Toda cor e perfume
Inteira
Eu quero você
Em sabor e volume

Completa
Assim te espero
Toda partes e seios
Repleta
Eu quero você
Em amor e anseio

Paisagens

Morro tranqüilo
Em morros distantes
Amigos ausentes
As frutas falantes

São tênues as cores
Nos morros vibrantes
As falas silentes, eu
Morro galante

No parto sabia
Do morro a sentença
Cantigas dormentes
Na alma rampante

Ignaros

Mentes tacanhas
Somente pequenas
Tosco arremedo
do fútil brinquedo

Mentes restritas
Somente auditas
Fosco luzeiro
do febril vespeiro

Mentes vazias
Somente azias
Tristes pelegos
dos ágeis veleiros

Mentes malditas
Somente bonitas
Velho matreiro
do real realejo

Cidadania

A Cida e
A Aninha

Se vão escorrendo aos muitos,
E se dando aos poucos.
Promessas de papel silente.

A Cida e
A Aninha

Pela porta dos fundos,
Fogem longe os franceses!
Travessas em mãos vazias.

A Cida e
A Aninha

Se perdem na fila dos direitos,
E ao dever se prendem escorreitos.
Dádivas de sentido inerte.

A Cida e
A Aninha

Buscaram do seu jeito aprender,
Pois o jeito é transcender –
Sistemas de partes sozinhas.

Cantiga Moderna

Já joguei o vídeo-game ê-ê
Naveguei ei-ei
Na Internet tê-tê
E a vi-da-á
Já olhei ei-ei
Pelo ca-, pelo cabo da TV

Vida em janelas
De ciberespaços
Vazios de abraços
As telas de fundo
São a superfície
Da estéril planície

Já joguei o vídeo-game ê-ê
Naveguei ei-ei
Na Internet tê-tê
E a vi-da-á
Já olhei ei-ei
Pelo ca-, pelo cabo da TV

Telescópios globais
Mantêm à distância
Os seres iguais
Microscópios de crédito
Inibem o sonho
Do serdes iguais

Já joguei o vídeo-game ê-ê
Naveguei ei-ei
Na Internet tê-tê
E a vi-da-á
Já olhei ei-ei
Pelo ca-, pelo cabo da TV

Conversa de Botequim

Ei João,
Desliga a televisão!

Viva sua vida por si,
Abrace o real, agarre-se a ele.
Sinta as dores, os cheiros, sabores,
Sangre e sue com água e sangue!

Ei José
Cê é um mané!

Preso no pó de seus pobres livros,
Não sabe da última a nova notícia.
Passa o tempo perdido no vento,
Cansando a cabeça com seus pensamentos!

Ei João,
Desliga a televisão!

Deixe as etéreas paragens,
E seus farrapos de vida.
Esqueça os fantasmas que a tela povoam,
Fale ao vizinho do dia de hoje!

Ei José,
Cê é um mané!

De mornos vizinhos já me estou cheio,
Trocá-los não vou e não quero,
Pelos doces segredos burgueses,
Em novelas desfiados.

Ei João,
Desliga a televisão!

Será que acredita,
Nos sonhos vazios da pobre caixinha?
Nas vãs fantasias de grandes e tolas
Mesquinharias?







Ei José,
Cê é um mané!

Na tela eu vejo as tenras estrelas
Com brilhos nos olhos
Os olhos são meus!

Ei João,
Desliga a televisão!

Será que não sabe que ela tem dono?
Seus filhos, seus pais, quem dela nasceu,
Nada mais são que os fariseus?

- Viva!
- Vivem!
- Pense!
- Pensam!
- Sinta!
- Sentem!

Auto-Ajuda

Trafego
Por entre prateleiras de
Publicidade esperneante
Proibindo a escolha do
Não escolher

Navego
Nas ondas matreiras de
Anúncios gritantes
Consumo compulso a te
Consumir

Renego
As cores faceiras em
Imagens vibrantes
Orgasmos de luz em
Incêndios de dor

Publicidade

Gergelim
Fresquinho
Docinho
Molinho
Quentinho
Durinho

Pudim
Saboroso
Cheiroso
Gostoso
Cremoso

Aipim
Frito
Cozido
Salgado

Alecrim
Crocante
Picante

Arlequim
Sangrado

Capim

Comércio

Eu
tinha
esse

Ele
tinha
aquele

Esse por Aquele

Eu
tinha
aquele

Ela
tinha
aquilo

Aquele por Aquilo

Eu
tinha
aquilo
Ela
tinha
aquele
Ele
tinha
esse

Nós tínhamos tudo

Então uma abelha zuniu
No ouvido do ele
E o esse valeu mais que o aquele
E o aquilo já não bastou

Queria aquele
E tinha o esse
Desejei...

Desejo de igual
Marcando eternas desavenças.
Pois, para ser igual,
Primeiro se descobrem as diferenças.

Dei mais por aquele
Do esse que tinha
Eterno prisioneiro seria

Vãos tesouros,
Por aqueles acumulados
Por esses perdidos
Por vidas trocados

Tempo

Sou
Fui
Serei

Existo porque jamais existirei
Vivo das vidas a que escolhi
Você escorre, escorre

Tenho
Tive
Terei

Das vidas a que escolhi
Você escorre, escorre
Tenho porque jamais terei


Vivo
Vivi
Viverei

Você escorre, escorre
Escolhas que fiz
Vivo porque jamais viverei

Prece

Faz-me terra boa
De serôdias regada
Tecido vivo em húmus pulsante

Que eu seja raiz forte
Porosa e firme em ternos laços
Da seiva o fluxo vibrante

Guarda-me o caule lenhoso
Aos céus alçado faceiro
Em ventos fortes o calmante

Inspira-me os ramos
Em cores explodidos
Queima viva do ar vazante

Desânimo

Do fogo perduram as cinzas
Cicatrizes em pó vertidas
Lembranças no ar esvaídas

Do corpo baixam os ossos
Pétreas raízes em caixas enceradas
Memórias em cálcio de almas lavadas

Do brilho ficou o torpor
Sombras dançantes em tênues retinas
Registros gravados em negro

Da vida – dissabores
Gotas de morte em ternas agonias
Sopros rajados da peste vazia

Lamento

Ai
De mim,
Ser pobre e profano
Maculado e marcado
Por dores e amores!


Ai
De vós,
Cotidianos medíocres
Chorados e doídos
De sonhos e horrores!

Ai
De nós,
Diários de guerras
Em batalhas perdidas
Da morte os odores!

Fobias

Medo
Do que ameaça

Escuro
Perigos
Fantasmas
Alturas

Temor
Do medo acerca

Noite
Inimigos
Sustos
Quedas


Pavor
Do temor que irrompe

Cegueira
Mortes
Precipícios
Quebras


Horror
Do pavor desconhecido

Fantasmas
Esfinges
Pesadelos
Enigmas












Terror
Dos densos horrores


Cegueira
Mortes
Precipícios
Quebras

Fantasmas
Esfinges
Pesadelos
Enigmas


Angústia
Do eu que ameaça

Do precipício a queda não temer
Mas de nele eu me jogar

O caminho do conhecimento

Datus
Acasos
Fragmentos
Pedaços
Sensações

Informătio
Ordem
Cálculo
Coerência
Percepções

Cognoscere
Sentidos
Análogos
Reflexos
Compreensões

Ex

Ser ex é ser sempre
Pois se ex fui
Muitos sou

Se fui já sou
Pois se sou
É porque fui

Me querem ex
Mas sou sempre
Do que um dia fui
Levo comigo o que sou

Se sou já fui
Pois se fui
É porque sou

Criação

Te ponho no aquário
De um belo verde
Te faço notório
O mais entre os tais

Faça de tudo
Exceto o exceto
Da espada de fogo não passarás!
Da fonte do logos não beberás!

Viva tranqüilo
O muito viver
E fica sereno
Com reles poder

Téchne

Invento o possível
Aplico a contento
Poucos e vagos
Conhecimentos

Crio o invento
De fogo e do vento
Faço de pedras e paus,
Os meus instrumentos

Produzo ligeiro
Obras e artes –
Prendo o tempo
Nos meus momentos

Leves caprichos
Da alma vazia
Trazem sublimes
Emolumentos

Traição

A verdade se esconde
Em vãs aparências
Fuga do âmago -
Shikizokuzeku

Partir, sem dizer,
Ao mundo e ao mesmo lugar
Ver e não poder enxergar
Lágrimas em olhos
Que não vão chorar

Sorrisos estreitos
Nas costas à espreita
Respostas vazias
A perguntas não feitas
Falam de abrigos e cavam jazigos

O jardim de Annapurna

Outrora belo jardim
Descuidado quedou
Arrumá-lo necessário se faz

Dinheiro para um pagar
Para o um o trabalho fazer
Dividi-lo possível não é

Dinu, pobre coitado,
Dos pobres o mais coitado é.
Infeliz mortal.

Bishano, rasa figura,
Dos ricos desceu ao poço dos tristes.
Infeliz mortal.

Rogini, sombra de vida,
De moléstias sobrevive aos poucos.
Infeliz mortal.

Soubesse apenas de um,
Lépida escolheria.
Sabendo tanto de três,
Prostada me vejo por dias.

Como justiça fazer,
Sabendo o que não se devia?
Tornar iguais os diferentes,
Sendo diferentes os iguais?

Triste sina
De terceiros decidir
A sina.

Flor de Tsuwa

No alvo deserto
Se ergue altaneira
Antecipa a manhã do mundo.
Do rigor extermo
Exuberante desperta
Segundo o viver do sol escondido.

Visionária, vislumbra clarões
Em meio a tramas de cinza.
Com fios alvos de linho,
Tece sua pele macia.
Romântica, chama os amados.
Mostrando a beleza dos seus oceanos,
Navega em mar deslizante.

Go-Jou

Soltar o sorriso
Largar a pestana
Armar a cabana
Viver com paixão!


A bola no ângulo
Vibrar o triângulo
O cheiro do sândalo
Amar o viver!


O chá de cadeira
Ficar numa beira
Comer a poeira
Matreiros enganos!


O sol contorcer
A lua fender
O forte vencer
Perdão a voar!


O não compreender
O ter que ceder
O intrometer
A vida viver!

Koan

Da árvore caída
No bosque deserto
Som não se ouviu

Da água escorrendo
Na lua minguante
Reflexo não se viu

Da força do braço
Amplexos abraços
Teor não sentiu

Caminhos

O ponto ao longe
Sentido caminho
Um prumo perpétuo
A direcionar

As dores da alma
Contrário sentido
Um rumo incerto
A desconsolar

Mistérios inócuos
Sentidos vazios
Palavras perdidas
A se decifrar

Uniformes de bronze
Sombrios sentidos
Os fardos eretos
A ameaçar

Mitocôndrias

Eu
Alimento
Você
Energia

Eu
Sustento
Você
Alento


Eu
Potencial
Você
Gatilho

Eu
Crescimento
Você
Mantimento

Eu
Vivo
Você
Sobrevivo

Se alimenta e me dá energia
Se sustenta e me dá alento
Se prende e me faz prisioneiro
Se liberta e me dispara
Se impulsiona e me mantém
Se me dá a vida e se te dou a sua
Se de dois fizemos um,


cromo-somos

Estações

Da primavera lembro as flores
Perfumes rosas entoados
Fazendo em pétalas molhadas
Frutos de bem viver

Do verão sinto os calores
Marcados em ternos odores
Deixando as casas suntuosas
Espantando os seus bolores

No outono tênues laços
Se rompem em descompassos
Sorvendo sutis cascatas
Remando nas asas dos ventos

Do inverno sonhos distantes
De longas horas hibernadas
Laçando em fitas depuradas
Cristais de neve do saber

Desperdício

Viver tanto
E tão pouco viver
- Angústia dos que dormem.
Em sombra se passam
Buscando reflexos

Correr tanto
E tão pouco alcançar
- Sina dos perdidos.
Aos espelhos de atiram
Saturando os sonhos.

Sorrir tanto
E tão pouco chorar
- Embuste dos desenganados.
Aos outros revelam
Suas dunas caiadas

Sofrer tanto
E tão pouco aprender
- destino dos apressados.
Cicatrizes colecionam
Em peles cloradas.

Big Brother

Em castelos de vidro
Me escondo de mim
De tudo que mostro
O nada que vejam

No meu despudor
Me disfarço assim
Na ausência da cor
Invento segredos

Por um vazio na vida
Me entrego assim
Alegrias estéreis
Em uma vida dormida

Caminho do Vento

Enxergo o que não vejo
Sonho utópicas utopias
Corro atrás do vento.

Faço de castelos nuvens
Vivo sombras sombrias
Navego em cimento.

Encontro idéias perdidas
Penso teóricas teorias
Nasço ao relento.

Busco tesouros de tolos
Caço remotas remissões
Sopro cataventos.

Atiro pedras aos amigos
Falo fúteis futilidades
Mato o tempo.

Vanderlei

Brilhou nos seus olhos
Fugiu de seus dedos

De herói por um dia
Para herói da história
De um povo que luta
E sabe vencer

Real e vibrante
É seu sorriso marcante

De quem traz nos olhos
O ouro errante

Flaviana

Cachos em ondas
Contornos de fadas
Molduras

Glacê nos seus olhos
Brilhos melados
Vitrines

Montanhas e vales
Declives e acentos
Espelhos

Neve em seus braços
Suspiros molhados
Imagens

Nuvens em laço
Ternos compassos
Miragens

Rio tranqüilo
O sorriso das nuvens
De castelos refeitos
Em mares bravios

Rio tranqüilo
De praias serenas
E pontes em arco
No espelho das águas

Rio tranqüilo
Quando planto a semente
E penso na rosa
No sonho eterna

Rio tranqüilo
De quedas em cores
De arcos em íris
Risíveis amores

Ser

Eu sou eu
E mais nada

Fujo das prisões
Das definições
Nas grades as grandes
Explicações

Se sou algo
E não só o que sou
Já nem sei mais
O que não sou

Querem minhas partes
Nas bandejas de prata
Das ordens da arte

Ars não sou
Pois se sou, sou eu
E eu vou ser

Os seus artifícios
São só malefícios
Ars não sou
Eu sou eu
E mais nada

Intencionalidades

Penso que
Você
Acha que
Eu
Imagino que
Você
Suspeita que
Eu
Acredito que
Você
Entende que
Eu
Quero que
Você
Pense.

Insatisfação

Feitos
Imperfeitos

Do início dolorosa consciência
Despertar de solitária finitude
Melancolia de triste sapiência

Feitos
Trejeitos

Ajustes do eu ao todo
Embustes do todo no eu
Identidades perdidas em massa

Feitos
Desfeitos

Rumores de entropia
Esvoaçam sem cor
Da vida se vai o sabor

Feitos
Insatisfeitos